Crônica
Danuza é sempre Danuza

* Resposta comentário à crônica Mulheres Fortes de Danuza Leão, na qual ela comenta que as mulheres frágeis têm de tudo e as fortes não. Justamente por serem como são!

Danuza é sempre Danuza. Sem querer ser sexista ou maniqueísta, acho que todo mundo tem um lado frágil e forte. Pena que, a nós homens, deram a pecha da fortaleza ingrata e imaginária. Não operamos no simbólico com a fragilidade, no sentido de seres humanos. Somos uma máquina que deve trabalhar, arduamente, na construção do mundo moderno. Tanto é que o tempo do “sexo frágil” há muito foi atropelado pelo capitalismo, quando a mulher também foi descoberta como máquina de fazer dinheiro. Como diz Rita Lee em Cor-de-rosa-choque, “dondoca é uma espécie em extinção”.

Nessa angústia aloprada da modernidade-mundo, vivemos sufocados(as) pelo sistema, que nos arrebata à esfera da produtividade demoníaca. Esqueceram que somos seres humanos. Aprendemos a lição! Nos encontramos pouco, nos divertimos idem. Amamos pouco ou quase nada. Queremos ser amados, mas nem sabemos como sê-lo diante da “falta de tempo” de saber lidar com o(a) outro(a). Não temos tempo para as nossas necessidades mais orgânicas: dormir, conversar, comer (em todos os sentidos), contemplar o mundo a nossa volta...
Como disse o psicanalista Contardo Calligaris um dia desses na Folha de S. Paulo, “O materialismo não nos libertou de convenções e valores, só nos levou a confundir o bem com o bem-estar fisiológico. O desrespeito às hierarquias estabelecidas não nos tornou autônomos, só preocupados com o olhar dos outros. Não temos nenhuma razão pela qual morrer porque não sabemos como viver. Alguém deve ter descoberto essa banalidade. Por isso propõe uma nova rodada do jogo do mestre e do escravo, aponta uma arma e nos pergunta sardônico: será que vocês sabem morrer?”

A resposta é NÃO! Não sabemos morrer porque não vivemos o presente. Logo, o passado fica tão vazio e sem muita história. Daí, a sensação de que o tempo passa depressa. Já estamos em outubro? Sim! Nossa, passou rápido, né? Não, não passou rápido. Nós é que estamos parados na máquina do sistema.
Temos medo da morte imaginária, no sentido de não termos tempo de realizar sonhos, de pormos os planos em prática. Vivemos para o futuro que não existe no simbólico, mas no imaginário. Imaginamos um futuro e esquecemos de construi-lo no presente com a vivência de seres humanos, ora fortes, ora frágeis. O que nos sobra é mesmo essa angústia do vazio porque nos esmeramos no futuro. E ele nada mais é do que “um tempo sem história”.

Concatenando a idéia de Danuza e a de Calligaris, termino com uma frase que li um dia desses que dizia “Quem não morre, não vê Deus”. Então, tentemos morrer um pouquinho a cada dia. Quem sabe, assim, teremos um presente cheio de passados bons, ruins, frágeis e fortes. Tudo vai depender da nossa vontade de morrer, que extrapola esse medo imaginário da morte diante da covardia da nossa sobre(vivência)!

Faço parte de uma considerável fatia de lares constituídos por um só membro familiar, constatada pelo IBGE. Por isso, como habita em mim mesmo uma família inteira, que depende só de mim, digo que só tenho o direito de me sentir frágil, deprimido – no máximo – por 24 horas. Mas me dou o direito dessa fragilidade. Afinal, a fragilidade é só para os mais fortes. Isso no sentido de abraçá-la por um instante e abandoná-la logo depois!

por Valmir Costa, jornalista, mestre e doutorando em Ciências da Comunicação pela USP e professor de jornalismo das Faculdades Rio Branco (São Paulo) e de publicidade da ECA-USP como professor convidado.


Texto de Danuza:
Mulheres Fortes

Ah, como deve ser boa a vida das mulheres frágeis; elas sempre têm alguém que carregue os embrulhos, preencha o Imposto de Renda, troque o pneu do carro, e por aí vai.

As fortes fazem tudo sozinhas, e são sempre chamadas nas horas do aperto: elas agüentam qualquer tranco, e são tão fortes que se metem até mesmo onde não são chamadas, para ajudar a resolver os problemas dos outros.

Elas acreditam no personagem, veja só. É dura a vida das fortes, que não são poupadas de nada.Se alguém está com uma doença grave, é a elas que vão contar; se a namorada do sobrinho ficou grávida, são as primeiras a saber, e quando alguém da família é preso com uma trouxinha de maconha, são imediatamente chamadas para as providências de praxe... fora os problemas financeiros, é claro.
Enquanto isso, os pais e mães desses jovens adoráveis estão tomando uma vodca na beira da piscina sem saber de nada... eles não agüentariam um choque desses e precisam ser poupados, porque são frágeis.

Existe sempre alguém para cuidar dos frágeis, seja um parente, um amigo, até um vizinho, que bate na porta preocupado com o silêncio e para saber se ela está precisando de alguma coisa.

Uma mulher frágil é mais frágil que um recém-nascido, e como os homens adoram o papel de protetores para se sentirem fortes e poderosos, é a união perfeita da fome com a vontade de comer.

Quando elas ficam doentes, um verdadeiro exército é mobilizado; um leva revistas, o outro um embrulhinho com pêras, maçãs e uvas, e se ela não tem empregada não falta quem vá para a cozinha fazer uma canjinha.Preste atenção que vai perceber que essas mulheres frágeis são indestrutíveis.

As fortes, na hora de uma crise de coluna, se arrastam até a geladeira para pegar um copo de água, e se alimentam o fim de semana inteiro com uma barra de chocolate, pois ninguém telefona para saber se precisam de alguma coisa. E elas, verdade seja dita, preferem morrer de inanição a pedir socorro, para não cair o tipo.

Há uma pesquisa a ser feita: uma mulher frágil nasce frágil ou escolhe essa profissão para se dar bem na vida? Por que elas se dão bem, e sempre encontram um homem talvez ainda mais frágil do que elas para cuidá-las, acarinhá-las e cuidar para que nada as atinja, nunca?

Afinal ela é tão frágil, coitadinha. Enquanto isso as fortes se acabam de trabalhar, e são elas que saem dos supermercados com pacotes de compras sem que ninguém se proponha a dar uma ajuda, mesmo que modesta.

Somos todos estimulados a ser fortes, mas boa vida mesmo levam as frágeis,daí a dúvida: não seria melhor que as mães, os pais e os colégios ensinassem as crianças a ser frágeis, pois sempre haverá alguém para cuidar delas pela vida toda?
E aliás, qual a vantagem de ser forte, além de saber que um dia alguém se referiu a ela dizendo "aquela é uma mulher forte"? Um grande elogio, é verdade. Mas e daí?
Toda mulher forte tem desejos secretos que não conta nem a seu travesseiro: que alguém, e não é preciso que seja um homem faça um gesto por ela, de vez em quando.

Nada de muito importante; apenas um cuidado, do tipo dizer que a está achando pálida, perguntar se tem se alimentado direito,pegar pelo braço e levar para tomar uma vitamina bem forte.

Sabe qual é o sonho dourado de uma mulher forte? Ter uma gripe com 38º de febre e poder ficar na cama.Mas para ela até ter uma gripe é difícil, pois uma mulher forte não adoece; e se isso acontecer, o mais difícil vai ser receber ajuda, pois uma mulher forte não deixa que ninguém faça nada por ela, mesmo precisando desesperadamente, para não passar por frágil.

E é capaz de preferir se deixar morrer de tristeza, solidão e sofrimento a pedir socorro seja a quem for. Como são frágeis, as fortes.

Danuza é sempre Danuza
Valmir Costa

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